O assassinato de Giovanna Laura e o perfil frio e dissimulado do feminicida

Frio, calculista e dissimulado, o assassino de Giovanna Laura Santos Peters, 20 anos, não esboçou qualquer reação ou arrependimento durante o depoimento prestado na delegacia, nessa sexta-feira (3/12), em que confessou, com detalhes, o crime brutal contra a jovem e indicou onde estava o corpo. Após matar a namorada com uma facada no pescoço, o motoboy Leandro Araújo Marques, 22, abandonou a vítima em uma estrada de terra, em Taguatinga. Depois de cometer o feminicídio, para despistar a polícia, o suspeito enviou uma mensagem para o WhatsApp de Giovanna, em que disse: “Amor, cadê você”. Entre janeiro e outubro deste ano, a Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF) registrou 23 feminicídios. O de Giovanna é o 24º.

Giovanna estava em um dos melhores momentos da vida. Recentemente, havia iniciado um estágio como monitora de uma creche no Areal e estava feliz com o novo emprego, segundo relataram familiares. Há cerca de três anos, a jovem iniciou o namoro com Leandro, mas não demorou para surgirem as primeiras agressões.

Os dois romperam o relacionamento, mas haviam reatado o namoro há pouco tempo. Em entrevista coletiva, o delegado-chefe da 23ª Delegacia de Polícia (P Sul), Gustavo Farias Gomes, afirmou que o autor era possessivo de ciúmes e tinha histórico de agressões. A mãe da vítima contou que o casal brigava frequentemente e, em uma ocasião, Leandro bateu o celular contra a cabeça da vítima.

Farsa do assassino

Fim da tarde de domingo (28/11). Giovanna saiu de casa, em Samambaia, para ir até a residência do namorado, na QNN 24 de Ceilândia. Leandro foi buscá-la. Durante a noite, o casal começou a brigar. O motivo seria ciúmes. Segundo as investigações, ele achava que havia sido traído pela vítima.

As marcas no corpo da jovem e no do agressor constataram que houve luta corporal na noite do crime. Após a briga, Leandro pegou um facão, imobilizou a Giovanna e cortou a garganta dela, que morreu na hora. O corpo da vítima permaneceu na casa do agressor até a manhã de segunda-feira (29/11).

Por volta das 7h, Leandro foi até a residência de um amigo para pedir o carro dele, um Fiesta azul, emprestado, com a desculpa de que o veículo seria usado para fazer uma ligação de bateria em outro automóvel. O motoboy se deslocou até uma oficina, na QR 503 de Samambaia, onde pegou o carro, voltou para casa, colocou o corpo de Giovana e dirigiu por cerca de 3km até uma estrada de terra, próximo à antiga Academia da Polícia Civil, em Taguatinga. Em um local de mato, ele abandonou a vítima em um amontoado de pedras.

Friamente, duas horas depois, Leandro enviou uma mensagem do celular de Giovanna para a mãe dela, se passando pela namorada, em que disse: “Estou na casa do Leandro. Vou embora ainda cedo.” Depois disso, o celular ficou fora de área e não recebeu mais mensagens ou ligações. Para atrapalhar as investigações e despistar a polícia, o agressor mandou uma mensagem para o celular da vítima: “Amor, cadê você? Você sumiu. Estou atrás de você”.

A mãe de Giovanna telefonou para o genro e pediu para que ele comparecesse à delegacia a fim de auxiliá-la a prestar informações, uma vez que ele teria sido a última pessoa a estar com a vítima. Leandro negou e disse que estava trabalhando em uma chácara e só retornaria à Ceilândia no fim da noite.

A mulher solicitou a localização de Leandro para que ela mesma e uma policial fossem até a chácara. Lá, o suspeito avisou que a jovem havia saído da casa dele e solicitado um transporte por aplicativo para ir embora. Com as informações, os policiais deram início a uma série de investigações e constataram que Leandro mentiu, pois não havia chamado de motorista para o endereço dele.

Os investigadores foram até a casa do suspeito e, no imóvel, encontraram uma mancha de sangue na cadeira da sala, uma camiseta suja em um cesto de roupas no banheiro e um facão, supostamente, utilizado no feminicídio, na lavanderia. Ao ser confrontado, o motoboy negou qualquer envolvimento no desaparecimento da namorada. “De acordo com as informações que foram nos passando, nós encontramos várias contradições. Até que, no final do dia, já com o advogado e a família na delegacia, ele disse onde teria ocultado o corpo”, ressaltou o delegado Gustavo.

A vítima estava em estado de decomposição e coberta por pedras e madeiras, em uma região deserta e de mata, geralmente frequentada por usuários de drogas. O Corpo de Bombeiros Militar do DF foi acionado para fazer o resgate. O assassino confesso foi autuado em flagrante por homicídio qualificado por motivo fútil, feminicídio e ocultação de cadáver. A pena pode chegar a 30 anos de prisão.

Três perguntas para

Mariana Nery, advogada especialista em direito e da mulher

Como a senhora avalia as políticas públicas implementadas para o enfrentamento no combate à violência contra à mulher?

Após a Lei do Feminicídio, os crimes contra mulheres, que eram jogados debaixo do tapete, passaram a ter qualificadores, já que era algo desqualificado. Com a lei, muda-se a progressão de regime e vários pormenores. Contudo, os números continuam em alta, e as políticas desenvolvidas não estão sendo suficientes para combater efetivamente os feminicídios e as agressões sofridas por mulheres.

Como a senhora acredita que devem ser essas políticas públicas?

O primeiro de tudo é a conscientização sobre essas mortes, é sobre as mulheres receberem um melhor atendimento e serem mais compreendidas nas delegacias da mulher, ao invés dela ser questionada em depoimento, por exemplo. Quando não se tem a voz ouvida, ela é silenciada. É preciso haver uma educação, uma campanha para mudar isso desde o epicentro do problema. Tem que começar essa campanha de conscientização nas escolas, na televisão, nos estados, nas prefeituras, etc. Com políticas melhores, podemos conseguir mais fácil a prisão dos agressores e evitar que eles saiam e voltem a agredi-las.

Tivemos um aumento de mais de 70% nos casos de feminicídio em um ano no DF. Como a senhora avalia esse cenário?

Desde a pandemia, os casos de violência e feminicídio aumentaram muito. Esses homens ficaram trancados, perderam empregos e descontaram a raiva e a fúria na mulher. São homens que enxergam a mulher como um ser de segunda classe. Nós, mulheres, acabamos virando um saco de pancadas e nem os nossos corpos não são respeitados.

Onde pedir ajuda?

Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência — Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República
Telefone: 180 (disque-denúncia)

Centro de Atendimento à Mulher (Ceam)
De segunda a sexta-feira, das 8h às 18h. Locais: 102 Sul (Estação do Metrô), Ceilândia, Planaltina

Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam)
Entrequadra 204/205 Sul. Telefone (61) 3207-6172

Disque 100 — Ministério dos Direitos Humanos
Telefone: 100

Programa de Prevenção à Violência Doméstica (Provid) da Polícia Militar
Telefones: (61) 3910-1349 / (61) 3910-1350

Homens contra o feminicídio

Com objetivo de mobilizar os homens na luta contra o feminicídio, a Campanha Nacional 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher vai entregar medalhas para aqueles que se destacaram nessa batalha. A homenagem ocorre na segunda-feira (6/11), na Biblioteca Nacional de Brasília, no Setor Cultural da República, Área Cívica. A iniciativa é uma parceria do Instituto Virada Feminina e da Secretaria da Mulher do Distrito Federal.

Retrato da tragédia

Entre janeiro e outubro deste ano, a SSP-DF registrou 23 feminicídios na capital. O número, no entanto, não inclui a morte de Giovanna Laura, o que totaliza 24 assassinatos. No mesmo período do ano passado, houve um total de 14 feminicídios, ou seja, Brasília registrou um aumento de mais de 70% nos casos.

Com base no Painel de Monitoramento de Feminicídios no DF, 43% dos assassinatos foram cometidos com uso de arma branca, 26% com arma de fogo e 13% por asfixia. Em 73% dos casos, as mulheres foram mortas dentro de casa e, em 21%, as mortes aconteceram na rua, em praças e estacionamentos. Em relação à motivação, assim como Giovanna, 47,8% das vítimas foram assassinadas por causa de ciúmes; 21%, devido ao término do relacionamento; e, em 30%, a causa não foi informada.

Matéria publicada no Correio Braziliense.